domingo, 4 de julho de 2010

Outonal

Cai uma folha no poente destes dias
O que era nítido torna-se difuso
Babel renasce em cinzas de um deserto próprio
E o vento busca em vão uma harmonia

A solidão é em mim um oásis às avessas
Lutando em vão contra a miragem certa



Amélia Pais

sábado, 3 de julho de 2010

E AGORA?

Meu ascendente é Aquário
meu amor, universal.
creio em Deus, no Taoísmo
e em certas lições de abismo.
Vivo em rito sumário
 às vezes creio, outras cismo
e quando é verde o sinal
acelero o narcisismo,
que a vida sugere avenida.

Acendo velas aos dias
com  espectro de sete cores
tenho mil supertições
De um passado de cientista.
cultivo grandes manias
e alimento beija - flores
Tenho bem frágeis noções
do carma  de ser artista.

Herdei do meio acadêmico,
 Inconsciente  pavor
 de  pisar o chão da vida,
 donde abstraio  paisagens.
corrói-me um sentir anêmico
corrupto em pressas de amor
a reabrir certas feridas
trava-me  novas viagens.

Um pouco, sou masoquista
quando evito o telefone
De  mentiras paliativas.
 sou igual a tanta gente
por isto sou esquisita.
Abdico do meu nome
chame a mim  de coisa viva
que o  nome comum não mente
Elane Tomich
Teias

                     Tanussi Cardoso


Alimentar aranhas,
eis o meu ofício.

Deixá-las criar tentáculos.
Moscas mansas
apaixonadamente sangrar.
Cuidá-las para tecer
os pequenos vícios
do seu tear
: venenos sutis
: tatos improváveis

- vivê-las.

Redescobrir as cores
as sedes e as sedas.
As sendas do meu destino
nelas entrelaçar
: véus de astúcia
: morte e viuvez.
Decifrar sua dança
: rede de valsas
: fios de arame.

Aprender com elas
o ritmo do salto.
 
BUSCA

Busco na eternidade
dias demarcados
aos gestos. Imobilizado
na ultrapassagem
de nuvens
encobertas: infinito
horizonte das esperas

entorno na consciência
de marginalidades. Estupor
sobreposto ao medo na metalização
do ocaso. Fogo
decompondo cinzas
em retorno.

(Pedro Du Bois, inédito)


A LINGUAGEM DAS SOMBRAS

NALDOVELHO

Ando aprendendo a linguagem das sombras.
Não das que causam arrepio,
mas das que evidenciam contornos
num plano pleno de luz que absorvo.

Outro dia consegui ler um rochedo
com toda sua história ali preservada...
Só agora entender eu consigo,
a aspereza que trago comigo.

Ando aprendendo a exercer sutilezas
só assim poderei caminhar pelas sombras,
não aquelas que nos provocam o medo,
mas as que nos vivenciam os rochedos.

Outro dia consegui desvendar um enredo
com todos os seus numerosos segredos,
quantos e preciosos caminhos,
emaranhados de muitos destinos.

Ando exercendo a palavra delicadeza,
poemas semeados sem pressa.
Qualquer dia desses vou adormecer riacho,
acordar corredeira, morrer em seus braços,
renascer em você.

Ando aprendendo a exercer existências.
Subliminar

Onde enterrar esse medo moto-contínuo repleto de magnitude, de arraias, aranhas, e uma solicitude que me envolve como um amante, cheio de braços, mãos e fantasias. Fantasmas que dominam em uma auto-imolação desencadeando cismas e conflitos. E começo a pensar que fiz tudo errado, que excedi no tempo, cheia de quebrantos e feitiços. Corri demais, irremediavelmente obscena nos versos e sentimentos, não me poupei! Sempre no último movimento, como se fosse morrer. Atmosférica, cheia de cetins e entusiasmo. O fogo de Deus! Movimento ininterrupto de sangria. A alma a cair-me aos pés, cheia de ranhuras, a denunciar vida entre conflitos, curvas e todas as paixões a arderem. E agora tenho medo, porque não cessam, porque não param. Vivo num mundo à parte, muito longe do lugar-comum, transpirada de sol, apaixonada e cheia de versos subliminares, de tules e asas

Mara Araujo
SARAMAGO - Gènio que Partiu

 
Júlio-Semeador de Poesias
Partiu José Saramago.
Chora a Língua, sem consolo.
Da palavra, atingia o âmago.
Um gênio sem paralelo.

Dizia duvidar de Deus,
Porém, sua dúvida maior
Era em relação aos homens
Que fizeram-No segundo o pior


Existente dentro de cada um.
Tentativa sacrílega de justificar
O mal, sentimento doido e comum,

A medrar em pérfidos corações.
Mas tu, amigo, insistiu em proclamar
A beleza, que ilumina as emoções.

A PONTA DA ESTRELA

[ RuiValeSousa]

Fabrício Brandão



Tenho segredos que me sabem.
Todos eles tidos em mãos ocultas,
Circundam um tempo vazio de horas.
Então, adormeço para fazer frente aos desejos,
Catando a outra borda do sonho.
Pequeno grande objeto estranho de mim,
Deixo o sol se espraiar sobre mentiras,
Uns tantos prediletos brinquedos de vida.


_ menino do morro_



menino do morro ensina-me o teu sorriso?

ensina-me como expurgar este grito timbrado e rubro
nas artérias de minhas palavras, que arquiva e guarda
teus irmãos feridos nas valas, o negro agredido pela estupidez da policia

 ensina-me a caminhar nos versos de tuas trilhas
e este jeito coragem de atravessar estas tantas ruelas sujas e esquecidas
onde  a morte espreita a vida e sangra nas retinas das  tuas  esquinas

a tua esperança, menino do morro, empresta-me:
       - para ungir este fio de fé que me resta.

anadeabrãomerij

O Homem, o tempo e seu caminho ...    


   

 Eduardo Silva
Há quem viva olhando para o chão...
Curvados sob o peso do passado,
Alimentam-se do pão bolorento,
De tudo aquilo que, para eles,
“A vida lhes negou”

Há quem viva olhando as estrelas...
Elevados na leveza de seus sonhos,
Alimentam-se do pão fantasioso,
De tudo aquilo que, para eles,
“A vida lhes trará...”

Há, ainda, quem viva seu caminho...
Olha o chão, aprende com a terra...
Do passado, só quer suas lições!
Olha as estrelas, e fabrica os seus sonhos...
Do futuro, só quer a esperança!
Volta ao seu caminho...
E com tal pão,
Sua vida,
Ele a faz...

VOLTA

 José Gil
Devagar o texto organiza-se
contra a parede do sentido.
Volta. Inquietos os lábios
inventam o chão, os dedos
tocam a febre que te leva
solta ao cavalo que te espera

na pedra nua do leite
da parede que te bate
contra o limbo da noite
a noite dos dedos a noite
da mão – um só corpo
sentado nu na estrada do
fogo verde, o triangulo
do texto migrante ao
sabor do vento sem eixo
acinoma, descubro o presente
a identidade, o território da
dádiva, na cabeça o beijo

a musica, então  a sílaba
inventa o bloco transparente
do texto e da noite no arco
transversal ao corpo, deleita-se
na tua margem nua, o seio




ODE À ESTAMIRA





Fabrício Brandão


 uma certa cara rajada
e eu cato verbos no monturo
para limpar as falsas purezas

abraço a companhia dos invisíveis
pois eles justificam a minha intensa vontade
de não entender o solo que esmago

a boca tritura a razão que inventei
quando sei berrar ao divino
minha sã doutrina

fui apedrejada pelos restos do cometa esperado
mas, mesmo assim,
sei amansar águas com os olhos




*Para Estamira, nobre catadora de sonhos.
AMOR DIVINO



Eu sei que me amaste no brilho das coisas simples

como o verde da árvore, a seda dos crepúsculos,

a água-mater das mãos recolhendo a coloração dos frutos

porque, sei-o hoje, se me amasses rubi ou esmeralda

o amor reluziria na tremura dos teus dedos.

Agora, eu sei que me amas como se fosse uma deusa

inalcançável detendo o fogo dum raio de luz

e, ainda, que doendo a renúncia desse fogo

continuas a amar-me na minha imortalidade de mortal.

Eu também sei que numa rosa encarnada

sentes o perfume dos meus cabelos e me chamas

deusa em movimento, mutilada num alvoroço de

pregas esvoaçantes e asas aladas.

Ainda sei que me amas na figura de Florbela

quando no parque dos poetas a solidão te encontra

e a beijas tocando-lhe a face de pedra

sonhando o teu toque na carne viva do meu corpo.

Eu sei que me amas na distância dos barcos

indagando o amor na alvura das velas.

Eu sei que o milagre dos meus beijos perdura na dor

dos dias e das noites que separam o nosso tempo…

mas, amor, eles perdem-se pelos prados, avenidas e estradas

e são somente flores abstractas e desfolhadas.

Fica tão longe o meu corpo de ti que somente o sol

se compadece e sente o seu riso no cântico das sereias

e sob o seu encantamento reténs o mar nas mãos

embalando sonhos onde moram as areias.

Meu amor, o mar é negro no rio do inverno

e meu olhar é uma nuvem enclausurada no longe…

Ah! Mas eu sei que me queres a teu lado pelo brilho das estrelas

porque nelas vês o meu corpo num cálice de fulgor divino

ainda que te doa o silêncio de névoa nas janelas.

É então que tua mão traça sobre as saudades do corpo

a poesia de W. H. Auden “Tu és o meu Norte, o meu Sul

O meu Leste e o meu Oeste (…).



Bernardete Costa
Sobre danças e morte
[ Rembrandt]
Belvedere Bruno


Hoje, veio-me  à  mente a imagem de Candinha. Todas essas comemorações em torno do Dia das Mães  trouxeram à tona a simplicidade e sabedoria com  que  ela  vivenciou seus dias. Aliás, dias esses em torno dos oitenta anos, quando a conheci no frescor  de minha juventude .  Gostava de falar a respeito de tudo, inclusive morte, para ela assunto sem  mistérios. Causava-me admiração sempre que dizia : "Quando eu morrer, não me visitem no cemitério, pois lá jamais estarei. Sempre que quiserem estar comigo, coloquem um jarro com flores sobre a  mesa e dancem, cantem, assim como faço para meu filho há  dezoito anos!".  Era pura magia vê-la dançar, tamanha  sua  entrega e emoção .  Na ingenuidade de nossa adolescência, não entendíamos que naquele momento ocorria uma catarse. A dor da perda, a saudade eram daquela forma exteriorizadas.
 Decidi, então, homenageá-la. Pensaram, um tanto preocupados, que eu  pudesse estar com algum problema emocional.  Talvez ande um tanto nostálgica, confesso, mas  coloquei um ramo de flores do campo num jarro, bem no centro da mesa da sala e fiz mais ou menos como ela fazia:  cantei, mesmo sabendo-me uma desafinada por natureza.  Misturei  canções de Chico, Gonzaguinha, Jobim... Por  aqui, nenhuma lembrança acerca dessa pessoa, cuja personalidade era admirável por ser tão fora dos padrões estabelecidos naquela época. Após muito refletir, sinto que as lembranças nunca chegam por acaso. Através delas, me descubro, de certa forma, parecida com Candinha. Portanto, quando daqui me for, não me busquem em cemitério...
 Por instantes, transporto-me a um passado longínquo, mas consigo sentir, ainda, o aroma das flores ao mesmo tempo que ouço Candinha:  "Que meu exemplo seja de alguma forma perpetuado.  Se  apenas um de vocês fizer o que venho mostrando há tempos, meus ensinamentos não terão sido em vão. Tenham certeza de que não vale viver trancafiado em dores, pois lá fora a vida sempre vibra. Incessantemente. Um dia vocês entenderão tudo isso."
 E pareceu-me ver o  seu sorriso envolvendo toda aquela minha confusa, mas  bem intencionada celebração.


http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/
Exercício n2 para Mario Faustino

           Eric Ponty
Para fazer sonetos de pés quebrados,
deve começar pela sua forma rara,
nunca desconfiar icto pode alterar,
por gesto de uma tônica tão formal.

Por isto de que há tanto sonetos raros,
auferindo-se a forma modal deste icto,
destas estátuas sólidas feitas de ar,
deste seres perpassam-se deste arado.

Meu soneto não é de sólida certeza,
incerto reafirmasse desta sua forma,
de tornar cada instante súbito verso.

Oh pátria destas tantas certezas certas,
entantos tantos pés quebrados sonetos,
por gesto de uma tônica tão tonal.



A VOZ DO MEU SILÊNCIO


cláudia helena villela de andrade

A voz que me fala é breve.
Não me amanhece.
Não me alisa.
Não me beija a boca.
Vacila na adrenalina do trapezista e
na coragem  do domador.
Fareja esconderijo
em   sinagogas,  mesquitas e  igrejas.
Procura castigo, perdão e razão
nos sete pecados capitais.
Freqüenta terreiros, lugares suspeitos.
Aguarda vento Norte
que  chicoteia o corpo.
A voz que me fala também grita.
Mas eu me calo, para não me desarmonizar.
Não transbordar afeto,
não me fazer infeliz.
Às vezes, nem sabe que existo
porque ando com os pés no chão
para não despertá-la.
Para não reconhecer tons graves
e me perder em harmonias agudas que desconheço os ritmos
podendo, sem querer, virar hinos.
A voz que me fala me vicia.
Compassiva, me silencia.
Esvazia minha sementeira e colhe razões.
A voz que me fala arrepia.
Deseja minha flor, minha sabedoria.
Não rega.
Não fertiliza.
Não ara minha terra.
Não gira meus chacras.
Não me magnetiza.
Apenas deixa-me em transe.
A voz que me fala distancia-me das quimeras.
Não me sussurra.
Não lambe meu sereno.
Não me cobre corpo, nem me vela sono.
A voz que me fala só me faz escutar quando morre,
no silêncio da hora exata,
depois do eco, depois do suspiro, depois do alívio
da minha paixão satisfeita.
Mas o que ela me fala, mesmo na morte,
nem sempre  quero  escutar.
Porque o silêncio é minha voz, sempre.
Na vida.
Na morte.
Em qualquer lugar.


a paz emudeceu

 

 

 

massacre, diz um israelense; genocídio, diz o arabista.

meu poema, estupefato, busca a palavra que não existe

para dizer do fim que não haverá

 

entre ataques e intifadas [1] a questão vai além da terra;

no silêncio mundial falam as eleições

 

o ceticismo salta entre pesares e pensares

 

calam-se a cumplicidade, a dignidade, a esperança

: a paz emudeceu num momento sem boa-vontade.


sonia regina



[1] levante em árabe

O Palhaço





Olha o nariz
de bola do palhaço.
Olha o sapato -
um metro e meio de cadarço.
Olha o cabelo
vermelho que ele tem.
A flor que solta água -
mal-me-quer ou me-quer-bem?

Quando o palhaço chora
todo mundo ri.
Quando o palhaço cai
ninguém tá nem aí.
Quando ele cai
de bunda no balde
todo mundo gosta
todo mundo aplaude.

A gente paga ingresso
ele paga mico.
É o maior
sucesso do circo.
A gente leva a filha
ele leva a falha.
Quando seu gesto brilha
põe na tristeza a mortalha.

domingo, 23 de maio de 2010

Belvedere Bruno

A porta



[Homenagem a Fausto Rodrigues Valle]

A porta fechou. 
Inesperadamente. 

Ficou um cheiro de jasmim,
e a lembrança suave das palavras
sempre tecidas em ternuras...

No porta-retrato, aquela alegria serena. 

Tudo permanece
como num quadro de memória.
_ Só ele não está mais aqui._


Belvedere Bruno

João S Martins

o meu livrinho 

perdido o meu livrinho agora
escrevo a vida
em dias soltos quase
desligada

sem tela ou tintas pintarei
com as mãos
e as cores de água
recolhidas

seguirei as linhas da estrada de ferro
dos carris
desenhada com lápis de cera
derretidos

no barro e na madeira amassarei
os sentimentos
e a dor dos dedos
fugidios

e encontrar-me-ei na sépia
de uma fotografia
ainda quente
auto-retrato

em folhas soltas guardo
as cores de água de beber
a vida

desenhada com lápis de cera
e a dor dos dedos
ainda quente

no meu livrinho

© João S Martins – USA