sábado, 1 de maio de 2010

Maria João Oliveira

A magia de um lenço branco

Surge, de vez em quando, à face da Terra, uma pessoa cuja Beleza não cabe dentro das palavras, porque estas não podem traduzir a claridade do seu olhar nem a sua maneira única de lidar com as coisas. Quando uma pessoa especial realiza um Sonho, não há fio de água que não se transforme em cascata que tudo muda. Por isso, gostaria de falar do Impossível que se torna possível, graças a uma pessoa especial: Salgueiro Maia. Com ele, as portas das prisões abrem-se e as armas disparam flores. Cai, na rua, a mordaça de um Povo que ri e chora. Um simples lenço branco, nas suas mãos, evita um banho de sangue. A sua coragem e ternura colocam, nos dedos do Povo, um anel mágico que o ajuda a libertar-se do Minotauro que o sufoca no labirinto do medo, da miséria, da angústia, há mais de quarenta anos. As gaivotas voam mais alto e há crianças a colocarem cravos vermelhos nos canos das metralhadoras. Fernando José Salgueiro Maia vence, de coração desarmado, os chifres do Poder e dissolve a longa noite que cercava este Povo como um muro.
Por tudo isto, não é possível ficar de braços cruzados, quando algo ou alguém me convidam a falar de Salgueiro Maia, ainda que as minhas palavras não possam traduzir tudo o que sinto, nem o valor deste Homem invulgar.

A dor toca-o demasiado cedo. E uma névoa de tristeza tolda, para sempre, os seus olhos verdes e penetrantes. No entanto, a esperança e a ternura moram neles e esta aliança jamais se desfaz. Aos quatro anos, o Fernando José sonhava já com o porto da “ínclita Ulisseia”… E também queria conhecer os animais do Jardim Zoológico, assim como outros jardins de fadas, gnomos e duendes.
E, um dia, vai, com os pais, à Terra do Nunca. Nos seus belos olhos claros, leva o espanto e o deslumbramento, mas a flauta do Peter Pan não toca para ele. Ao volante de um autocarro, conduzido a alta velocidade, surge o Capitão Gancho que não o prende, mas que lhe rouba o maior tesouro que ele tinha: sua mãe. Na Estrada das Laranjeiras, junto ao Jardim Zoológico, ela não resiste a um brutal atropelamento. E o menino que, um dia, havia de ser capitão, não pode voar para a Terra do Nunca. Não perderia o seu coração de criança, mas aquele encontro com a morte, aos quatro anos, marca-o, para sempre. A Hora de sonhar está ainda muito distante, mas uma medalha de ouro com o retrato da mãe, jamais abandonará o seu peito. A tristeza nunca paralisa a boa semente. E esta vai germinando, silenciosamente, num país cinzento que sonha, mas que não pode nem ousa arrancar a mordaça que o sufoca. Cedo descobre que quer ser militar. A curiosidade e a paixão pelos livros alargam-lhe os horizontes e determinam o seu rumo na própria carreira das armas. Torna-se um militar de ideias claras e firmes que irá lutar pela liberdade de um povo oprimido, há décadas. Por isso, em 1971, na Guiné, sente que aquela guerra é injusta e que urge pôr-lhe termo. O seu coração sangra ao ver morrer, de ambos os lados e longe de casa, tantos “Meninos de sua Mãe”… E sonha já com uma noite memorável que há-de dar à luz a Liberdade. Não sabe quanto tempo terá de esperar por esse momento de feliz gestação. Apenas sabe que está disposto a dar a própria vida, se for necessário. O seu País é uma casa pequena, sem sol, onde a Liberdade não pode entrar e onde imperam a fome e a tristeza. Ele sabe que tem razão e só terá paz, quando a ditadura exalar o último suspiro e a guerra colonial chegar ao fim. Tal como Mahatma Ghandi, “ o único ditador que ele aceita é a voz silenciosa da sua consciência”. Os grandes Homens são assim. Nunca deixam de ser meninos e começam, muito cedo, a ser grandes.
Certa noite, no aquartelamento, abre, calmamente, uma lata de conserva das rações de combate e abre-se, perante um camarada que o escuta, avidamente: “ Havia de ser bonito… Eu pela Avenida da Liberdade abaixo, até ao Terreiro do Paço…” Os seus olhos cor de esperança vêem no escuro, para além do que os outros vêem… Movido por uma invulgar ânsia de conhecimento, lê todos os livros que estão ao seu alcance, sente-se feliz com aquele “mais” que eles nos dão e, às vezes, lembra-se de Sebastião da Gama: “ É pelo Sonho que vamos / comovidos e mudos /(…)”. Voar para a Terra do Nunca e colocar o Capitão Gancho e os seus piratas fora de combate torna-se, cada vez mais, urgente.

Mais do que nunca, a polícia política prende intelectuais, políticos e sindicalistas, mas a mudança que cresce já no ventre da esperança, está prestes a vir à luz do dia. E a mudança põe sempre à prova o tamanho de cada um. Os que amam o repouso e a segurança temem-na, os que nunca mudam ignoram-na, os corruptos odeiam-na, os medíocres riem-se dela, mas… para o Homem que sonha e ama a Liberdade, ela é o próprio ar que respira. E, um dia, num país ainda adormecido, a mudança começa a surgir, na luz azulada do amanhecer. Salgueiro Maia parte de Santarém, com os seus homens, preparado para vencer ou morrer por um Povo que sofre numa guerra injusta, que não tem pão na mesa e que vive amordaçado pelo medo. E começa a travar a mais bela e difícil das batalhas: mudar um regime sem derramamento de sangue. Uma mudança que assombra o mundo. É urgente “(…) acabar com o Estado a que chegámos”, como ele já tinha dito aos seus homens. Homens que também estão dispostos a dar a vida, se for necessário e que acreditam no seu líder. Um líder firme e simples como só o sabem ser as almas verdadeiramente grandes. O afecto, fonte principal que alimenta, desde menino, este Homem, é determinante na sua vida e salva-o em momentos cruciais. Também por isso, evita abrir fogo perante as forças fiéis ao regime que já estão no Terreiro do Paço e que, aos poucos, se vão colocando à disposição de Salgueiro Maia. E quando uma força da Guarda Nacional Republicana pretende atacar pelo lado do Campo das Cebolas, ele e o comandante desta força, que tinha sido seu subalterno em Santarém, acabam por se abraçar perante um repórter da rádio que fica estupefacto e diz para o gravador: ”agora já não percebo nada! O Capitão dos revoltosos abraça o GNR!”. Ele não sabia, talvez, que estes abraços são redentores e que o mundo “armadilhado e robotizado em que vivemos”, de que fala Ana Alçada Baptista, precisa urgentemente deles.
No entanto, pouco depois, os Capitães de Abril e as suas tropas vivem momentos dramáticos no Terreiro do Paço, perante o brigadeiro Junqueira dos Reis que comanda quatro carros de combate, uma Companhia de Caçadores do Regimento de Infantaria I e alguns pelotões de polícia militar. A certa altura, o brigadeiro vê a sua força a entregar-se, aos poucos, numa atitude solidária que comove Salgueiro Maia e os seus homens. Revoltado, Junqueira dos Reis dá ordem para disparar ao alferes miliciano Sottomayor. E, neste momento, Salgueiro Maia desafia a morte, serenamente, sozinho, desarmado, com um lenço branco na mão, perante o ponto de mira do adversário… Não encontro palavras que possam traduzir a beleza deste momento sublime que cai sobre um país ressequido como cascata que tudo inunda e muda. Um lenço branco faz História nas mãos de um Homem que dá uma lição aos que dormem de “consciência tranquila” sobre milhões de cadáveres, aos anões que não se cansam de fazer a guerra, de vomitar fogo sobre gente inocente, de calar, para sempre, risos de criança…
E, neste momento mágico, nem o alferes acata a ordem para disparar, nem os apontadores dos carros de combate abrem fogo, nem os atiradores que estavam atrás dos carros de combate obedecem ao oficial-general Junqueira dos Reis! E todos caminham de coração desarmado, emocionados, ao encontro de Salgueiro Maia e das suas tropas. Desesperado, o brigadeiro ainda atira alguns tiros para o ar, tentando provocar um impossível banho de sangue. Como não consegue obter resposta, acaba por se retirar com os poucos homens que ainda estavam a seu lado. A ditadura agoniza nas ruas. E “com a ajuda das tropas fiéis ao Governo”, como dirá, mais tarde, Salgueiro Maia, a Revolução dos Cravos avança até ao Largo do Carmo e cerca o quartel da GNR, onde se encontra Marcelo Caetano e alguns membros do seu Governo.
O país fecha bancos, comércio, escolas e fábricas, os seus olhos colam-se aos écrans dos televisores e escuta, ansiosamente, os comunicados da rádio que passam de quinze em quinze minutos. No Largo do Carmo, uma multidão solidária e em festa, junta-se aos capitães de Abril e oferece pão, leite, enchidos, fruta e… cravos vermelhos. Cantam a marcha do MFA e Grândola Vila Morena. O Largo do Carmo é já um mar de gente, o Povo sobe às árvores, diz aos militares que está com eles, que dali não arredam pé, aconteça o que acontecer, porque a luta dos militares é também a deles… E os cravos vermelhos chegam de toda a parte, para engalanarem as armas, completando assim aquele comovente e raro Poema de Liberdade, num País que ri de felicidade, nas avenidas e nas praças, e que escuta, em festa, as canções proibidas de Zeca Afonso, Francisco Fanhais, Sérgio Godinho, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira, etc. Enquanto os tanques vomitam fogo no Vietname e noutras guerras brutais, em Portugal, as armas disparam flores.
Contudo, todos vivem momentos de grande tensão, enquanto o quartel não se rende. E a polícia política do Estado, na sua sede, raivosa e em pânico, atira sobre a multidão, provocando dois feridos e um morto. Todavia, o regime acaba por cair. Marcelo Caetano rende-se ao general António de Spínola e segue na Chaimite “Bula”, com Salgueiro Maia, que já tinha pedido à multidão, respeito pelos vencidos. Os grandes Homens são assim. Na Hora da vitória, não humilham o adversário e os louros não lhes interessam. Quando a luz do seu olhar incide sobre as trevas, o caminho torna-se visível e, com determinação, a maioria segue-o. Salgueiro Maia, com a serenidade, a firmeza e o bom senso que são apanágio dos Heróis, leva os adversários a renderem-se, trata-os com respeito, ensina ao mundo como se muda, sem sangue, o rumo de um país. Um país que abre as portas das prisões para homens e mulheres que lutaram e sofreram pela Liberdade e, ao qual, regressam, felizes, aqueles que sofreram a dor do exílio.
A Revolução dos Cravos toca o coração do mundo e Salgueiro Maia é aplaudido em toda a parte, embora a ingratidão o não tenha poupado, por vezes… Mas ele acha que apenas cumpriu o seu dever e não pretende distinções, cargos, palmas…
Fica até visivelmente aborrecido, quando o ovacionam na rua.
Apenas quer voltar a Santarém e viver tranquilamente com a esposa, os amigos, os seus livros, os alegres convívios em que não faltam as suas boas anedotas, as visitas ao pai e à madrasta, em Castelo de Vide, sua inesquecível terra natal… A sua curiosidade e ânsia de conhecer levam-no a viajar por todo o país e pela Europa. Gosta de visitar locais históricos. Tem um particular afecto por Castelos. E orgulha-se de ter, na sua própria terra natal, um magnífico Castelo medieval, no alto de uma colina, rodeado por uma inesquecível paisagem que dá a esta povoação o “nome” de Sintra do Alentejo… E quando adopta duas crianças, a sua felicidade fica completa.
Porém, Salgueiro Maia tem ainda outra batalha à sua espera. Aperta o medalhão, com a fotografia da mãe, de encontro ao peito e luta pela vida em todas as frentes. Contudo, desta vez, o vermelho não é o dos cravos da sua Revolução, mas sim o vermelho do sangue que lhe sai dos intestinos, onde está instalado o seu pior adversário: um cancro. E o Herói que não gosta que o considerem como tal, é chamado, mais uma vez, a sê-lo. Durante três anos, luta com bravura, e sofre intensamente, mas não perde a serenidade perante as três intervenções cirúrgicas a que é submetido, a via-sacra das consultas e dos tratamentos… E, um dia, diz a Natércia, sua esposa: “Olha, daqui em diante, vamos viver cada dia como se fosse o último, sim?!”.
Quando a implacável doença lhe dá algum tempo de tréguas, ressurge, de imediato, a sua paixão pela vida, a sua alegria, a sua entrega à família, ao trabalho, às viagens, aos convívios, à sua actividade na Associação dos Castelos…
Pouco depois, o Homem que derrubou uma longa ditadura, que arriscou a vida com um lenço branco nas mãos, que sempre rejeitou o Poder, que viveu para servir, que tinha a infância no coração e que devorou livros até ao fim, parte para sempre. E, de acordo com a sua vontade, é sepultado em campa rasa, ao som de Grândola Vila Morena.

Posso então concluir que evocar a figura de Salgueiro Maia equivale a sentir Portugal como um país livre, embora já se tenham perdido algumas conquistas de Abril. Muito está por fazer, mas… se não esquecermos um Homem desta envergadura, jamais caminharemos para trás. E saberemos que amar, apaixonadamente, uma causa e lutar por ela é viver a vida completamente. Salgueiro Maia soube transformar numa pérola, o grão de areia que tinha entrado na sua concha de ostra silenciosa e sonhadora. E, no dia 25 de Abril de 1974, entregou-a a um Povo sedento de liberdade, justiça, fraternidade… Por isso, estou plenamente convicta de que a sua Luz jamais será devorada pelo Tempo. As suas asas continuarão a voar dentro de um País que nasceu de uma senha em forma de canção.

Maria João Oliveira

O som do inesperado


Num espaço sem tempo, vou ao encontro de uma Voz que me chama. Sem esta Luz, não é possível um espaço destituído de poder. A mediocridade não suporta a Beleza, tem algemas nos bolsos e põe guizos nas palavras. Guizos que se fazem ouvir como se a Verdade as habitasse. E é aplaudida pela maioria que a segue de olhos vendados.
Procuro, cada vez mais, um outro espaço sem retorno, habitado por esta Luz que me chama. Um espaço onde seja possível a comunicação como troca e participação, um espaço onde a verdade caiba por inteiro e o seu rosto não se deforme num implacável jogo de espelhos.
Ler o poder que está espalhado por toda a parte e se oculta sob as mais variadas máscaras, não é fácil. Gera inquietação e angústia. Ler todos os sinais e à velocidade da luz no vazio, ler os olhos, as mãos, os actos das pessoas, os bastidores, as palavras, a luz, a sombra, tudo o que está para além do espesso véu, cria uma sensação de exílio. No entanto, é imprescindível ler o texto e ser capaz de pagar o preço da leitura.
No momento em que tento escrever esta sede, oiço lá fora, no terraço, um pássaro que me chama todas as tardes, à mesma hora. Como sempre, já me identificou, através da porta de vidro. Não a abro, de imediato, para saborear o seu canto, durante mais tempo. A autenticidade existe, é bela, tem asas. O nó que sinto cá dentro desata-se. Aproximo-me e ele olha-me sem medo. Renova o seu canto, no muro do terraço. Perante a sua habitual dose de trinca de arroz, este reboliço pardalino, estremece de felicidade e pousa no chão. A linguagem deste poema alado é água que me mata a sede.
- Um dia, irei contigo, amigo, à procura de um lugar onde o poder nada possa submeter ao seu domínio. É urgente uma nova realidade, onde a Verdade e a Beleza cativem todos os seres. Seres que poderão ler o texto que está em toda a parte, e descobrir asas de borboleta em vidas amarrotadas que passam despercebidas.
No dia seguinte, ao amanhecer, saio de casa, atravesso a passadeira e começo a
caminhar ao encontro do desconhecido. De súbito, oiço passos atrás de mim. E alguém me coloca uma venda nos olhos. Com o coração a bater na garganta, pergunto quem é.
- Não tenhas medo…
A Voz que caminha ao meu lado é uma espécie de Luz que faz recuar a escuridão do medo. É tão suave e calma que me transmite uma estranha sensação de leveza e de liberdade. No entanto, sinto-me confrontada com um enigma.
- Aonde me levas?
- Vem comigo…
Oiço, neste momento, o rastejar de um bicho qualquer sobre folhas secas.
- É uma serpente. Também vai à procura da Luz.
- Da Luz?! E o veneno?
- Por isso mesmo, precisa dela ainda mais…
- Onde estou? Que lugar é este?
- Vais descobri-lo, através dos sons, aromas, sabores, texturas…
Apercebo-me de que os cheiros e os sons da minha cidade começam a ficar distantes. Continuo a caminhar sobre folhas estaladiças. E saboreio um adocicado aroma de framboesas que paira no ar. Sinto que o dia está ensolarado. O silêncio é tão grande e avassalador que posso ouvir um ramo seco soltar-se de uma árvore e cair, de mansinho, no chão. Uma agradável sensação de frescura toma conta de mim. Sinto um rumor de árvores a vibrarem em uníssono. Um estranho odor vem ao meu encontro.
- Segue esse perfume …- diz-me a Voz que me leva.
Obedeço e caminho, inspirando, profundamente, um ar lavado e fresco que me limpa a poeira do cansaço e me ajuda a caminhar em direcção ao desconhecido. Subitamente, oiço o canto de um pássaro que se aproxima e começa a esvoaçar à minha volta. E sinto, no rosto, o roçar macio das pequenas asas do meu amigo. Seria capaz de o identificar entre milhares de aves da sua espécie. Sinto-me invadida por uma sensação de encantamento. O seu canto ilumina os meus passos no escuro, ajuda-me a alcançar o Lugar que me chama… E ele segue também o misterioso odor. A certa altura, oiço uma cascata que parece precipitar-se do alto de um grande rochedo.
- Ainda não chegámos. Vamos… - diz a Voz , ao aperceber-se de que o som da cascata me está a projectar para outra dimensão. Pela mão do olfacto, continuo a caminhar.
- Agora senta-te nesta pedra e…escuta. O que ouves?
- Nada…
- Então ainda não posso libertar-te dessa venda. Escuta, mais uma vez.
De súbito, começo a ouvir um som que parece vir das entranhas da terra. E quanto mais me entrego a este som, mais ele se faz ouvir. Um som que paira acima do tempo. Quero ficar aqui, mesmo de olhos vendados.
- O que se passa? – pergunto, maravilhada. – Não consigo descrever este som.
- Estás a ouvir o som da floresta a crescer, a palpitação da seiva, a vibração das raízes, as asas dentro do casulo… E ouvirás o grão de areia dentro da ostra, a lágrima que se esconde, o grito encapsulado, o espaço destituído de poder, a ausência como fio que tece a escrita… Poderás ler novos mundos, lugares difíceis de nomear e de decifrar. E o texto surgirá como um efeito profundo desta descoberta. Estes sons existem, mas são… inaudíveis. Sim, estás a ouvir o inaudível.
Neste momento, o pássaro canta como quem celebra um acontecimento. Canta como quem tem algo a dizer. E leva no seu bico a minha venda preta.

Maria João Oliveira

Gabriel Perissé


"A arte da palavra"

Escrever é tomar a decisão de descobrir o meu método pessoal para forjar o meu eu em forma de texto.


Em Assim falava Zaratustra, escrevia Nietzsche: "Como é agradável ouvir palavras e sons! Não serão as palavras e os sons os arco-íris e as pontes ilusórias entre as coisas eternamente separadas?" — e podemos nós, ousadamente, argumentar que são as palavras o que há de menos ilusório, são os verdadeiros arco-íris e as autênticas pontes impedindo a separação eterna entre as coisas e as pessoas.



E as palavras somos nós, preenchendo esses abismos.

Por mais prosaico que seja o texto que precisamos escrever, por mais objetiva que seja a necessidade de uma carta ou de um e-mail, temos de levantar essas pontes com nossas palavras, com nossa personalidade, e fazer delas um caminho vivo para a comunicação interpessoal.

E essa comunicação precisa ser original.

Originalidade é o que se faz novo aos nossos olhos, com novas coerências, novo atrativo.
Uma pessoa original é aquela que está sempre nos surpreendendo pelo fato de ser uma pessoa. Uma pessoa original é aquela que traz a marca da evolução contínua, da insatisfação consigo mesma, e da busca de maneiras novas de dizer o que todos já sabiam.

Mas o paradoxal nessa história é que a arte de escrever de maneira original consiste na capacidade de repetir o que alguém já disse, de renovar o que alguém já expressou, e fazê-lo de uma forma reconhecidamente inédita.

O desenvolvimento da originalidade possui algumas etapas, a primeira das quais é imitar os modelos clássicos, e a última... imitar-se a si mesmo até a morte!

A solução para este aparente beco sem saída é entrar nele, corajosamente, e compreender que podemos imitar de forma criativa.

Antes mesmo de pensar nos modelos clássicos, voltemo-nos para as frases mais corriqueiras, como "estou com a faca e o queijo na mão", "desisti de dar murro em ponta de faca", "o tiro saiu pela culatra", e outras preciosidades que, bem aquilatadas, são inspiradoras de nossa originalidade.

Outro dia, minha filha de 3 anos de idade disse, enquanto me pedia que a ajudasse a abrir uma garrafa: "Pai, vamos misturar nossas forças?!". Mais do que unir, misturar! Ela estava aprofundando e renovando a idéia da união. Estava, sem querer, ajudando a repensar um princípio filosófico, e político.

Gabriel Perissé*

*[Escritor, doutor em Filosofia da Educação (USP), autor de vários livros sobre leitura, escrita criativa, educação, formação docente e estética.É autor do recém-publicado livro "A arte da palavra" (Editora Manole)]

José Gil


PERFOMANCE

A Maurice Ravel e
Claude Debussy

a arte era pura nas três hipóteses da performance
a narratologia, o tempo de dizer  o ritmo
do tempo, a isócronas  do amor recíproco
na densidade do tempo da minha língua
na tua pele uma coincidência temporal
no estado da rosa e do esparguete de mar
das paixões onde é o mesmo arrepio do espumante
perante os nossos olhos a audiência difusa e sentida
uma guitarra de cerejas para o sal do corpo todo
a onda já está dentro de ti e a incontornável
língua, depois de toda a fértil floração  como
a alma do violino sem som, toca, toca é o que
suporta os dedos com risos , as pétalas voam
contigo no vento, envia o cavalo aos quatro ventos.



ÉTIMO

a “Bohemian Like You “
dos Dandy Warhols


em torno uma  sombra giratória,
e já é o dia azul  na plataforma
flexível de um beijo quente
como o teu chão numa unidade
de altura, a musica negra e acid

existe ou não existe no percurso
o equilíbrio harmonioso e branco
para te tocar o medo e a fuga
no vermelho moinho para te
cativar ao ar fresco do cativo
és ou não és. ficas a olhar
cativando nos braços do rio
Cabul, avança num caminho
sinuoso, étimo no teu tempo
azul, eixos em vez de corredores
ou ângulos e um percurso
labiríntico, cortina ao vento
começas recomeças, escrevo-a
no equilíbrio da noite escura
com sombras na parede – a
janela entreaberta  rente ao chão
o erotismo fresco das termas
suburbanas de Pompeia. Todos
contra todos nas cinzas do Vesúvio.
onde o vento não para de soprar
contra a cortina e as portas da
janela aberta contra o frio e a
solidão , contra as cenas oníricas
no mar da palha onde o desagravo
é o  teu corpo atlético de vinil
imaginário para um inventário
imbatível de portadas a bater –é a
agrura  através da janela onde te
escrevo para lá da noite da cortina
a lua abre-se á sombra do sentido
da sílaba de “tron” uma pressão
súbita, um medo insuportável, um
herói egípcio, a porta da sombra
na parede onde voar é o teu ar
visível e fresco dos meus dedos
no teu olhar. os Deuses morrem
sempre no caminho, nos braços do
Tejo, percurso sinuoso, tempo  rosa
dos teus corredores, os seios ao
longo das margens do rio em
espectro, saltitantes entre lugares.



VOLTA

Devagar o texto organiza-se
contra a parede do sentido.
Volta. Inquietos os lábios
inventam o chão, os dedos
tocam a febre que te leva
solta ao cavalo que te espera

na pedra nua do leite
da parede que te bate
contra o limbo da noite
a noite dos dedos a noite
da mão – um só corpo
sentado nu na estrada do
fogo verde, o triangulo
do texto migrante ao
sabor do vento sem eixo
acinoma, descubro o presente
a identidade, o território da
dádiva, na cabeça o beijo

a musica, então  a sílaba
inventa o bloco transparente
do texto e da noite no arco
transversal ao corpo, deleita-se
na tua margem nua, o seio

José Gil
 

Rosangela_Aliberti



ALQUIMIA


Nas viagens da linha do tempo,
a PAZ... não está na montanha,
não está no nascer nem no pôr-do-sol,
a PAZ não está no luar
nem no olhar das estrelas,
não está nos campos de flores,
nem na presença do ente mais querido...


A busca da PAZ pode te levar às montanhas
o perfume das flores poderá te elevar...
assim como a visão de azul do céu
o contato com o vento nas pedras...
 o sabor das ervas,
o murmúrio das ondas nas fontes
...no mar
os sons dos sinos,
a luz das estrelas,
a interação com a essência dos
animais na Natureza,
e as boas lembranças dos entes queridos...


No meio do Caos, a PAZ,
em primeiro lugar tem que estar junto a VOCÊ.


Rosangela_Aliberti

Geraldes de Carvalho

Adoração

Vestida de ventos frescos
engrinaldada de amoras
feitos de feno os cabelos
e os claros olhos de auroras .
A pele do seu pescoço
é como um sopro
de fina
ambos os seios pequenos
e a cintura pequenina.

Sendo ela assim, assim
como hei-de amá-la ?

Só adorá-la
de longe.
Ai de mim!

Geraldes de Carvalho

Walter Cabral de Moura



                                                        AO SILÊNCIO
                                                                                                                         [Dali]
                            O silêncio é instrumento

                            comparável ao esqui –

                            é passar e deslizar

                            cuidado aqui, não vá /

                                                        cair.


                            O silêncio é vertigem

                            ver, ouvir e não falar –

                            talvez por falto de assunto

                            talvez por muito sentir /

                            ainda mesmo que coce

                            no vão da língua uma impigem.


                            O silêncio é veludo

                            que veste de gala e zelo:

                            parece, pois, desmantelo

                            um não querer ficar mudo.


                            No mapa do meu teclado

                            há um tesouro: o espaço

                                        em branco

                            para mostrar

                                 a cor do silenciar.



                              Walter Cabral de Moura

Elane Tomich



_ abrolhos _




 
estas matas ciliares
 dos teus olhos, se piscares,
 devorar-me-á  o mar

 em descuido hás de estar
 na lágrima que evoca o verde
 hino cor a me encantar
neste vento sul sem pressa.

 águas claras, abro os olhos
 sob água marinha, abrolhos
 de não querência, enduro
 dardo frio, teu olhar.
 o céu de ponta cabeça
 tomara que aconteça
 meu sonho, Porto Seguro

 pois que...

 estas matas ciliares
 dos teus olhos, se piscares,
 devorar-me-á  o mar

Elane Tomich

JFráguas


[duas vozes numa mão]


ainda anos e anos mortos ardem por aqui
e a memória no peito guardada
vislumbro pela greta da porta do tempo
a pele preta da cidade estudantil e os restos…
ainda que o não soubesse a essa hora
rebanho que era e  passa rente levando à vida
mais um dia em declínio


não há espaço – não há espaço? não há espaço de quê?
espaço que me retire deste espaço apertado
falta-me espaço    falta-me ar
falta-me apoio de peitoril à inquietação que me sobe
quando o espaço da noite aperta os braços
falta-me o cheiro do douro – doutro rio, todos os rios
seus cheiros no espelho das águas, o volume das sombras
ocupando o espaço que me falta, o espaço apertado


que teima e insiste na mesma lousa
o mesmo giz inspirado
justifica-o enquanto a benevolência
me não fecha os olhos e a ignorância
perfeita me cubra como Luz de viver maior
entre panorâmicas de cor serrana
e o olival
quebrado e requebrado na extensão do sol
como homem e mulher em sua casa
se perto se longe dos feitiços da idade
batida pela tarde


agora não que o espanto trepou ao testemunho
e o aperto se fecha na europa norte
como utensílio dado à saudade que já começa
medida com os olhos e
a aldeia em angústia fecha os punhos à causa
do sol e da água e das fontes e da rama dos pinheiros
que lhe diferem


ah!, o segredo. ah!, a ocasião.
localizar escolher zelar tempo que acontece
entre duas vozes numa mão!

JFráguas

José Félix



terra da alegria

[miro]
havia um país na copa da árvore
preso nas asas de um pássaro mudo.
a pronúncia da fala ainda sangra
da buganvília que abraça no tronco

a língua que resiste renascida.
são ínvios os carreiros da palavra
longos os rios. são largos os mares
penosas as marés na flor das ondas.

tenho na camisa um poema às gaivotas
do deserto de atacama    respirar
um beijo e abraçar o sol caído
na sombra enquanto um peixe escama a água.

é outro sul de chuva no caminho
que me prende à terra da alegria.

****
o próximo vento

quando cheguei sabia
que ia partir no próximo vento
na canoa da folha desenraizada
da árvore em crescimento.
e nos ramos dela modelo um navio
com a proa às avessas.

       é que fazermos o contrário
       é irmos num rio
       em deserção à nascente das águas
       a força primordial das coisas
       o ressurgimento das andorinhas
       à voz balbuciada no início
       da prece em construção.

na tua voz pressinto o ciclo das sílabas
e no amor na açoteia
à luz da natureza    minha heroína
vais nos braços de tétis embalada
no sueste das ondas
silabando as palavras amornadas
sabendo onde estás não sabendo
para onde hás de ir.

na comunhão de verbos semeados
saboreamos os frutos de uma árvore
longínqua com raízes em pedaços
nos olhos reflectindo sóis e luas
cegueira iluminada de viagens
no sono comum de marinheiro.

e depois deste vento outro vento
carrega o navio de uma árvore
rotas traçadas nos ramos dispersos
o rumo da raiz

a copa é uma ilha inacessível
que ressurge nas águas com as marés.

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à procura do idioma


uma corrente de ar atravessa a garganta
a dor e a febre crepuscular
desatinam o poema
e ao contrário dos dias úteis
a palavra declina a rouquidão
      um sentido de doença
      o amarelo de borges

a cegueira parece um mal menor

quando a infância percorre um país
adormecido    a cor insubstituível
descobre a copa das árvores
onde os olhos espreitam os frutos
no rumor da folhagem
a memória doentia
atravessa as páginas da árvore
carcomida
e um grito é um sussurro
que atravessa as águas como raízes
à procura do idioma    a seiva
que transporta à nervura do corpo ferido
a verticalidade proibida.

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o idioma possível
há uma casa e um país à deriva
e o idioma possível é a infância
dos objectos na arqueologia
das estruturas. os instrumentos cavam
a árvore donde brota a água
de todas as nascentes
apodrecem os ramos que eu conheço todos os caminhos
e das flores suspensas cai o aroma
no sonho da semente fértil.
[ de José Félix]

Ana Merij

_ ROGATÓRIO _


daí-me, senhor:

qualquer fatia de tempo sem uivos, sem gemidos

uma parte de alma que me falta, arrancada no grito

dái-me o credo como ungüento para essa minha fé rasgada

e o poente, senhor, para os joelhos vergados na hora sacra



daí-me, senhor:

uma tarde plena de borboletas lépidas e serenas

dai-me a palavra desnuda de iniqüidades e da dor

semeia, senhor, no meu olhar a quietude de lírios dos campos



livrai-me, suplico, do clamor dos inocentes e dos proscritos

do azeite e do vinho vertidos nas catedrais da ignomínia

dai-me o desmemoriar das epistolas flácidas dos sacerdotes

de oficio pirotécnico, carnavalesco e ensandecido



poupai-me, senhor,

da miséria dos desprezíveis

do ventre prenhe da menina de rua

dos maltrapilhos amontoados nos albergues e abrigos

das mães da sé chorando seus filhos

do lixo-homem queimando nas calçadas

de todas as izabelas agonizantes nos meus dias



para minha memória, dai-me senhor

as letras do mais absoluto esquecimento
e, um qualquer milagre:
                                         [- preciso!]

anamerij