domingo, 23 de maio de 2010

Belvedere Bruno

A porta



[Homenagem a Fausto Rodrigues Valle]

A porta fechou. 
Inesperadamente. 

Ficou um cheiro de jasmim,
e a lembrança suave das palavras
sempre tecidas em ternuras...

No porta-retrato, aquela alegria serena. 

Tudo permanece
como num quadro de memória.
_ Só ele não está mais aqui._


Belvedere Bruno

João S Martins

o meu livrinho 

perdido o meu livrinho agora
escrevo a vida
em dias soltos quase
desligada

sem tela ou tintas pintarei
com as mãos
e as cores de água
recolhidas

seguirei as linhas da estrada de ferro
dos carris
desenhada com lápis de cera
derretidos

no barro e na madeira amassarei
os sentimentos
e a dor dos dedos
fugidios

e encontrar-me-ei na sépia
de uma fotografia
ainda quente
auto-retrato

em folhas soltas guardo
as cores de água de beber
a vida

desenhada com lápis de cera
e a dor dos dedos
ainda quente

no meu livrinho

© João S Martins – USA

sonia regina




a paisagem está guardada



[Arthur Dove]

o vaso de gérberas não tinha sentido
ao lado de fotografias de pessoas ausentes. José Felix *



há terra embaixo das calçadas, não outra vida

nada há a procurar. a paisagem está guardada
no porta-luvas do carro novo, preto como a noite
da pausa que se vai

preenche-te de movimentos e sustenta o tato

continuas a mesma. pergunta. e embora o presente
trabalhe sem respostas, move-te. sem medo.
só os biscoitos de castanha retornam do passado

como as flores das quais não se deixa de falar.



sonia regina



* In: As gérberas. No caminho há flores, 2009

Bernardete Costa


As rosas da primavera

Era o que se podia designar um dia não; dificilmente escapava à carga negativa desses dias, mormente quando a chuva tombava das nuvens numa névoa cerrada e fria, originando sombras de uma indecifrável tristeza que se alapava à pele e à alma como uma lapa à rocha, porque as saudades lhe corroíam o corpo e o mais íntimo de si.
Por motivos imprevistos ficara remetida às quatro paredes da casa. A sua neta estava adoentada e prontificara-se a ficar com ela. Esse facto e a ameaça persistência e irritante da chuva que apostara em lhe transtornar o dia, impedira-a de fazer a usual caminhada pela avenida e receber a energia positiva da natureza de que tanto carecia. Assim, aproveitando o sono da criança, deitara-se no sofá bastante abatida, olhando pela ampla caixilharia os pássaros que, num voo atordoado, semelhavam acrobacias contornando os plátanos da avenida.
Filipa, a sua amiga de longa data, telefonara-lhe: possuía um dom especial, adivinhava-lhe os estados d’alma ainda que separada por alguns quilómetros, chamemos-lhe telepatia, capacidade mediúnica ou coisa que o valha. De imediato, algo na voz de Lara a preocupara, quase lhe adivinhava as lágrimas inundando-lhe as palavras.
Resolveu visitá-la, anda, disse, precisas de ar livre, receber a energia do mar, do vento, das árvores. Lara apontou a neta e as lágrimas rolaram de imprevisto como se uma nascente houvesse irrompido da penedia.
Que se passa contigo, perguntou, já um pouco assustada com aquela torrente de água.
Filipa sabia como Zé era um pouco bruto quando assumia atitudes e gestos e palavras incontroláveis duma dureza tal que magoavam Lara; a sua sensibilidade sentia-se ferida de morte nesses instantes, menos dolorosa seria uma qualquer ofensa física. Aliás, ainda que o achasse uma óptima pessoa, tinha de admitir, a acreditar em Lara, que ele detinha dupla personalidade.
Entrementes e duma forma convulsiva o pranto apoderou-se do corpo da amiga e Filipa achou que o ideal seria deixá-la exorcizar desta forma o sofrimento que, via-se, a tomava no momento.
Passado algum tempo, por entre os soluços que a sacudiam em espasmos, com o rosto congestionado, conseguiu articular, “não vale a pena…”.
Olhou-a com desconfiança. Porventura outra das crises da amiga relacionada com questões existenciais: martirizava-se com perguntas para as quais nem o conhecimento nem a espiritualidade lhe ofereciam respostas cabais, ou talvez tudo tivesse a ver somente com o afastamento que era evidente há uns tempos entre o casal e que começava a inquietá-la.
 “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, não te esqueças, disse, enquanto se chegava perto e a abraçava com um carinho muito especial, um sentimento antigo oriundo do princípio da adolescência.
Filipa, já perturbada e confusa com o choro imparável da amiga, o coração a querer adivinhar rupturas, desgraças, mortes… numa preocupação crescente, inquiriu o que se passava, e ela, “nada…nada…”
Alguma coisa tens que te apoquente, Lara; não se chora assim por coisa nenhuma!
Entretanto, Lara, com os olhos muito escuros e brilhantes das lágrimas que teimavam em assomar às janelas do rosto, vai deixando escapar alguns vocábulos, “estou perdida…apaixonei-me…”
Desassombrada, a amiga, “Outra vez, não! Não te vais deixar seduzir pela paixão, correr o risco de outra aventura! E acrescenta contemporizadora, deixa o tempo decorrer; ele aplacará esse sentimento, para mais… tão a despropósito na tua idade! Viste o que te aconteceu com o Zé? Também te apaixonaste, rompeste com tudo, pelo caminho semeaste dor e sofrimento. E depois?...Nunca foste feliz, completamente feliz, ainda que isso não exista”, murmura, inaudível, num sopro de nostalgia.
“Estou perdida…” repete como um robot, e as lágrimas a persistirem impetuosas, a subirem pelas escadinhas interiores dos olhos de Lara e a derramarem-se pelo seu rosto pálido.
A amiga, tenta reconfortá-la, “chora…chora…” e aperta-a no círculo dos seus braços. Talvez aquele rio de sal a purgasse por dentro ou de alguma forma sublimasse a angústia com que se debatia.
Até que Lara rompeu com aquele bloqueio que ameaçava sufocá-la, “não, não vou lançar-me no abismo da incerteza. Depois, num sussurro de água, falta-me a coragem para arrostar com tudo, novamente; a seguir, desabrida, além do mais, eu sei o que me espera: as primeiras desilusões, as primeiras palavras agrestes, as primeiras anulações…, e a indiferença e o desgaste a emergirem dolorosamente da rotina dos dias”.
Lara tenta ajudar, “vamos fazer umas férias juntas, vais-te distrair, esquecer…Vamos viajar, conhecer novos mundos, outras gentes…, o que sempre ambicionaste. Deixa tudo comigo. Eu falo com o Zé. Mas tens de me prometer: nada de telefonemas, de e-mails, de encontros fortuitos, rompes mesmo!”.
Lara reconhecia que era urgente desistir do seu grande e último amor se queria preservar a sua tranquilidade afectiva e até o seu equilíbrio financeiro. Porém, mais forte que a lucidez, a paixão dominava-a, “mas eu amo-o loucamente, desejo-o intensamente, este é o meu derradeiro e inebriante sonho…Mas tenho tanto medo, tantas dúvidas…
 Mas também sabes, persiste Filipa, que quando o desejo e o medo são exactamente os mesmos chama-se pesadelo ao sonho; e esse é o teu sonho transformado num pesadelo.
A ruptura que me exiges é como se me acordasses de um sonho profundo e feliz. Não, não sei se sou capaz, replica Lara, necessito de ouvir a sua voz, de ler as suas palavras, de o amar perdidamente até à exaustão plena dos corpos e das almas, como nunca me aconteceu.
Tem cuidado Lara, adverte a amiga, com mágoa. O que te diz a experiência? Já sabes como tudo se desmorona…para mais com os obstáculos que surgirão inevitavelmente pelo meio.
Ah, se ele pudesse estar mais perto de mim, se fosse possível os seus beijos de vez em quando, se fosse possível…, exclama Lara com enlevo, o olhar perdido no longe.
Já percebi que estás loucamente apaixonada, cega e louca como todo aquele que padece dessa miscelânea de prazer e dor que sublima e aniquila, comenta Filipa que já sentiu na alma e na pele a perda do seu grande e único amor. Vais esquecê-lo e relegar todas as lembranças comuns para o recôndito do teu coração, ainda que doa, porque vai doer a valer, eu sei. Tem de ser, amiga; não vais arruinar a tua vida, isso eu não admito!
Lara, trespassada pelo desencanto cruel da realidade, acaba por anuir com a aparente docilidade de um cordeiro. Apenas lhe restava, a partir desse momento, desejar o minuto em que fosse possível, liberta de todos os pensamentos, desembaraçar-se da própria memória.
A tarde estava soalheira, o céu cerúleo de fim de verão convidava a um passeio à beira-mar. A luminosidade daquela tarde especial estendia-se pela praia realçando o doirado das areias finas e envolvia a povoação com um halo de felicidade.
Rafael cingia-lhe os ombros, debruçava-se sobre os seus olhos semicerrados pela intensidade da luz e beijava-os carinhosamente.
Vamos até à esplanada. Tomas um café?
Contigo, amor, apenas quero estar contigo…mas posso, sim, tomar um café.
Era quase uma rotina, paradoxalmente uma doce e extasiante rotina: durante todo o dia, esse tempo sempre escasso, apoderavam-se um do outro: primeiro exploravam apressados os corpos, de imediato, retiravam as roupas que os asfixiavam e tombavam sobre o leito, sôfregos, mordendo-se mutuamente com beijos, orientando as mãos na exploração dos caminhos mais recônditos da pele. Depois ambos se humedeciam de prazer e luxúria…até que as nascentes rojavam e os rios transbordavam das margens por entre gemidos de delírio. Viviam aquele dia como se fosse o único, como se fosse sempre o último. 
Todo o tempo era escasso para vivenciarem aquele amor que os preenchia e os abrasava,” meu amor, meu amor…”, dizia-lhe Lara; e de novo pronto, o membro intumescido de Rafael procurava com avidez a entrada escaldante do corpo da amante.
Seguiam-se pequenos intervalos preenchidos por beijos, por carícias que ambos se empenhavam em fazer um ao outro. Ou então, vinha a lume alguma pequena controvérsia. Nem Rafael nem Lara abdicavam dos seus princípios, dos próprios juízos alicerçados numa lógica que nem sempre era unívoca. Lara acabava por prezar certo antagonismo que se gerava entre eles; racionalmente sentiam-se singulares, ainda que pela força do amor unidos num só como um prolongamento um do outro. Então, num desejo uníssono, procuravam o retorno a esse amor intransigente que lhes fervia nas veias; e essas pequenas querelas de imediato eram abafadas com sorrisos, beijos, e todas as loucuras que o amor inventa e permite…Finalmente, procuravam o silêncio e beijavam-se com o olhar perdendo-se comummente nessa ternura líquida e irreprimível que os inundava.
Depois de passado todo o dia juntos isolados do mundo e vivendo a intensidade do amor que os possuía num quarto de hotel, eles tinham um prazer especial em desfrutar alguns momentos ao ar livre, fazendo de conta que eram um casal normal em amena cavaqueira. Todavia os seus olhares, de onde aonde, prendiam-se um no outro e ficavam a navegar no enternecimento que deles emanava, até que um deles sorria com alguma gaiatice e retomavam a seriedade mais condizente com a normalidade que pretendiam evidenciar.
Pois, amor, são horas, não posso demorar mais.
Era invariavelmente a mesma situação. Marcavam um encontro, fruíam num hotel a sua ternura e o seu amor que juravam eterno como dois adolescentes, para depois cada um voltar à sua vida particular, ao seio da sua família instituída.
Um dia, com o desespero na voz, dissera-lhe Rafael: “não posso viver sem ti e não posso viver contigo”. A família que ambos prezavam e amavam, mormente os filhos, ainda que já crescidos, era uma amarra nas suas vidas..
Para Lara, já aqui se disse, uma experiência fracassada marcava-a a ferro e fogo. Como poderia cometer o mesmo erro? Ou melhor: como saberia ela se não se tratava dum idêntico erro?
Por sua vez, Rafael olhava à sua volta e constatava inúmeros casos de amigos e conhecidos seus, que, se a coragem não lhes faltasse, se pudessem voltar atrás, não cometeriam porventura os mesmos actos desencadeados pela paixão que também os exacerbara e cegara um dia.
Deste modo, Rafael, que já vivera algumas aventuras que considerara na altura avassaladoras, nunca acreditara poder um dia amar alguém… como sentia que amava Lara. Mesmo assim, o bichinho do medo espreitava a cada esquina dos seus pensamentos, da sua lucidez; longe de Lara a racionalidade dizia-lhe que “o amor é eterno enquanto dura”. Todavia, este era um sentimento tão absorvente que implicava uma tal dependência física e espiritual da amante que o transformava, como dizia, num molusco inerme. Contudo, e apesar dessa componente amorosa tão shakespeariana, um fiozinho de racionalidade puxava por ele e impedia-o que se lançasse no desconhecido. De certa forma, a pacatez sem surpresas do seu quotidiano, transmitia-lhe segurança.
Com Lara os sentimentos e as dúvidas não divergiam muito: havia uma necessidade constante de comunhão física e espiritual com Rafael, mas…Um MAS do tamanho do mundo ondeava sobre ela ameaçando naufragá-la numa contradição penosa de sentimentos.
Filipa, amparava Lara enquanto se dirigia ao automóvel. Esta, trôpega, sem vontade própria deixava-se conduzir.
Vês ao que chegaste?, pareces um farrapo…, tentas o quê, matar-te, por um homem? Repara bem no que te digo: não há homem algum que mereça o sofrimento duma mulher.
Lara olha para a amiga deitando-lhe um olhar sonolento. Não te ouço Filipa, não te quero ouvir…E acabou por tombar como um saco vazio no assento da viatura, imergindo num sono perigoso. A amiga levou-a célere ao hospital onde lhe fizeram uma lavagem ao estômago. Mesmo assim, o efeito da droga em excesso demoraria a passar. Só depois iria levá-la a casa. Entretanto precisava de inventar uma desculpa plausível quando telefonasse a Zé.
Lara e Rafael terminaram de vez. Porque nunca mais esta sugeriu um novo encontro e porque nunca mais este veio morar para perto dela. Faltara-lhe ao prometido, reconhecia Lara sentindo a acumulação de rancores na sua alma dorida, mesmo que tentasse desculpá-lo sempre que a amiga insistia, “vês como tinha razão?”, todavia no seu íntimo agradecia aos deuses a atitude de Rafael. Pelo menos a amiga não partira para um futuro incógnito e, quem sabe, para longe de todos os que a amavam.
O tempo decorria impassível, no entanto, anualmente, sempre no dia 21 de Março, o dia em que se haviam conhecido, Lara recebia em sua casa um frondoso e perfumado ramo de rosas encarnadas.
Os anos passavam e obviamente que Zé questionava a origem das rosas naquele 21 de Março, o 1º dia da Primavera.
Ela respondia com um sorriso travesso, disfarçando a melancolia que se lhe apoderava do coração, e cínica, “não imagino quem possa ser, talvez algum admirador da lisura marmórea da minha pele, do negro de seda dos meus cabelos, da minha cintura delgada de deusa, das mãos lisas intocadas pela artrose…, ou de alguém”, acrescentava num fio de voz já com um pequenino lago a enevoar-lhe a retina, “alguém que sabe da minha paixão por rosas vermelhas”.
Lara acreditava que o prazer é a maior de todas as dores humanas.
Depois, na tranquilidade solitária do seu quarto, apertava junto ao coração o ramo de rosas; febril, junto às suas narinas o perfume das flores inebriava-lhe os sentidos e as recordações de Rafael, vivas e plangentes, afloravam à memória, conduzia a sua mão pelos desalinhos do corpo, simultaneamente que a imagem amada se materializava a seu lado.
A carência de Rafael era tão lancinante que precisava dolorosamente do seu corpo no dela, de o sentir a pulsar no seu íntimo, e arrebatada por esse amor antigo, os orgasmos afluíam do recôndito dos seus rios extravasando em fluídos que sempre a surpreendiam… e extasiavam outrora o amante.
Os anos passavam serenos e as feridas cicatrizavam, ou assim semelhavam; Lara empenhara-se em redescobrir algum afecto junto de Zé. As reminiscências desse tempo de deslumbramento distanciavam-se para o esconso da memória, mal conseguia reter a imagem de Rafael que se transformava numa névoa ameaçando desaparecer como fumo pelo ar.
Por vezes, Lara era assaltada por uma mágoa profunda como uma raiz cravada na terra e não resistia; do fundo duma caixa velha como o tempo, retirava as folhas onde havia imprimido as mensagens apaixonadas. Aleatoriamente lia sufocada por saudades que doíam como um dente cariado “…queria beijar-te agora, como ambos gostamos, e abraçar-te ternamente, acariciando-te docemente para não machucar a frágil flor que tu és. Fica com os meus beijos eternos. Dorme bem, princesa, até amanhã. Adoro-te, amo-te, minha vida”.
Nesses momentos frágeis e cruéis das lembranças, uma dor fininha atravessava-lhe o coração como se uma serrilha o desfizesse em farrapinhos de sangue. Depois os netos entravam-lhe em rebuliço pela casa, avó isto, avó aquilo…e ela sorria com um sorriso triste que a perseguia como uma sombra pela vida em resposta às interpelações das crianças.
Naquele ano, como sempre no primeiro dia da Primavera, aguardava o tão ansiado ramos de rosas escarlates. Todo o dia vigiou expectante quem tocava à campainha, tentando escutar a frase há tantos anos repetida: Para a D. Lara, o ramo de rosas.
Avó, hoje não tens direito a rosas vermelhas, brincava Bruna já uma adolescente linda e atrevida. Anda avó, vamos dar um passeio pela avenida
Lara sentiu um zumbido na cabeça como o assobio de um eléctrico e recusou-se a sair de casa. Uma garra apertava-lhe o peito, e aquela dor fininha saía do coração, atravessava-lhe o maxilar, esvaía-se pelo braço esquerdo… e algo dentro de si se partia; num queixume de mágoa irreparável murmurou o nome eternamente amado. As lágrimas inundaram-lhe o rosto e tombaram sobre o vazio do regaço, o mesmo que, amorosamente, nunca mais recolheria em êxtase as rosas da primavera.

Bernardete Costa

jorge vicente

do amor



["i fall to pieces
each time i see you again" ]

(hank cochran / harlan howard)


se eu amasse o corpo de uma mulher
mais do que a mim mesmo,
jamais pertenceria a poema algum
porque de silêncio é feito o
ímpeto dos corpos

se os poemas quebrassem e rebentassem
e abrissem clareiras entre os pensamentos,
destruindo-os e criando-os
e tornando a rebentar,
talvez o meu olhar fosse de uma
sibila ardendo

[ou queimando dos olhos]

se a poesia fosse toda dos homens
e das mulheres
e das vozes discordantes
que enchem a calçada das minhas cidades,
talvez as palavras respirassem vida
e dos cálamos
saíssem veias
e artérias de fogo
e deuses trespassados de som

mas a poesia é isso
palavra ígnea
ou não-palavra
palavra antes da palavra,
quando ainda aspiramos ao dom
de poder morrer de amor.

jorge vicente

anadeabrãomerij

_ quisera _


quisera mais largo

o arco do meu canto e mais audaz

essa força que nunca me corresponde



quisera alcançar com meus passos

outros hemisférios onde a vida não zurze a alma



há um furo

na veia da página que escrevo

tão fundo que sangra



nem falo das ameias ou dos muros

onde minha voz assassinada ou de minha alma

gasta e suja pelo pó das batalhas



há um furo

no bolso do meu poema

tão fundo que dói



quisera...

apenas antecipar-me as gaivotas

e com as mãos límpidas plantar tílias e almíscar junto ao lago

preparando um caminho amoroso para a poesia :- nada mais!



anadeabrãomerij

Geraldes de Carvalho


Porrada

Em cada porrada que em ti dou
tambor
em cada pezada que em ti assento

ó terra negra encharcada  de lágrimas,
levanto o pó da África

e o da minha dor.

Geraldes de Carvalho
(de cento e tal poemas de amor e alguma futilidade)

Lílian Maial


LUAS, PEDRAS E OCEANOS





Eu ciclo, como as fases dessa lua,

E sangro, como o peito do poeta.

No sonho que sonhei, pra sempre tua,

Fui noite, fui estrela, fui a pedra.



Nos mares dos teus olhos de oceano,

Profundos, anciãos, aterradores,

Meus olhos fugidios, sem engano,

encalham na paixão dos teus humores.



Meu peito abarca os golpes dos punhais

E canta as tuas rochas e os teus troncos,

Emaranhados versos, qual serpentes.



Meu colo é desenhado por teus ais,

Arqueja por teu toque, aos solavancos,

E ainda guarda as marcas dos teus dentes.


Lílian Maial

Walter Cabral de Moura

FUNERAL
[autor da tela não identificado]

Havia uma multidão,
reunião de solidões
(somos pó, e ao pó tornaremos).

Nos olhos, oceanos;
nas almas, desertos
(no princípio, eram o abismo e as trevas).

Jogaram-se em silêncio as flores e as fitas
e só se ouviu a eloqüência da pá
aligeirando a terra.

Toda a gente mansamente dispersou,
voltando-se cada um
sobre seu vazio particular.


Walter Cabral de Moura

Maria João Oliveira

Lugar alado

[AllenJones]

Aquele medo era estranho. Tinha de o transformar em manteiga como o sapo da fábula fez ao leite. Pensava sempre nesta história antes de sair de casa. Gostava de ter a persistência daquele sapo, mas não conseguia perder o medo dos olhos de lobo. Às vezes, encontrava-o no supermercado, a fazer compras como toda a gente, mas sempre à procura de uma boa história para levar no saco da sua imaginação. Nicolau conhecia muito bem a sua câmara fotográfica e fugia dela como o diabo da cruz. Para cúmulo, os livros daquele escritor eram conhecidos em vários países. A sua câmara tinha um visor múltiplo e as suas fortes imagens tornavam ofegante a respiração do leitor. E este acabava por descobrir que não se encontrava exactamente no lugar onde lhe parecia que estava. Nicolau sabia que corria o risco de se transformar numa personagem dos seus livros, porque aqueles olhos de lobo já o tinham observado, várias vezes, mas ele acelerava sempre o passo e atravessava a passadeira, para o passeio do lado oposto, onde se sentia mais confortável e seguro. Não queria que o escritor o metesse numa única sílaba. A sua linha de fuga estava bem traçada, embora os olhos de lobo fossem seus vizinhos.
Nicolau, solteirão inveterado, trabalhava numa empresa, há muito. Os números tomaram conta do seu pequeno mundo, mas, por vezes, sentia-se refém dos livros e obedecia aos seus chamamentos. Reparava até no seu ternurento gato branco e na bela mulher que lhe sorria numa foto carcomida pelo tempo. Durante alguns anos, a solidão não lhe pesou muito. No entanto, andava inquieto, nos últimos tempos. Não sabia o que se passava. E aquela vizinhança, por vezes, roubava-lhe o sono.
O escritor aparentava ter pouco mais de sessenta anos, era alto, magro e tinha um sorriso de criança que o fazia pensar. Não tinha família e a sua única companhia era a Ricardina, sua fiel serviçal de muitos anos. Tinha lido, num jornal, que muito se esperava ainda do seu permanente desassossego, da sua capacidade de ver para além do que os outros viam, da embriaguez que o rejuvenescia e tanto enriquecia a sua obra. Um dia, havia de descobrir aquele segredo. Ele teria mesmo olhos de lobo? Já era tempo de perder o medo. Tinha de ultrapassar aquela zona fronteiriça que o separava do seu famoso, discreto, mas muito atento vizinho.
E, um dia, bateu-lhe à porta. A sua pacata cidade dormia ao sol de Agosto, mas o Dr. Silvestre não tinha ido à praia e estava sempre de antena bem ligada a tudo o que o rodeava. Ao ver o seu vizinho, sorriu abertamente e convidou-o a entrar como se estivesse à sua espera, há muito.
- Estou aqui, mas… não quero que fale de mim nos seus livros.
- Eu sei, amigo. Fique tranquilo. Por que é que eu havia de falar de si?! Esteja à vontade. A Ricardina está em férias. Assim, ninguém vai refilar com pontas de cigarros e livros no chão…
- Quero cortar uma corda que tenho no pescoço, soltar um grito, sei lá… Devo estar a ficar doido.
- Se calhar, nunca esteve tão lúcido… - respondeu o escritor, olhando-o fixamente nos olhos.
- Sei lá…Não estou a enxergar bem o caminho. Só me apetece saltar a cerca como fazia um burro que o meu pai tinha, dizer ao meu patrão que já é tempo de descer aos nossos infernos e… ainda outros disparates que nem lhe conto…
Nicolau calou-se, subitamente, e olhou à sua volta com uma atenção subtil. Viu prateleiras embutidas nas paredes do escritório, repletas de livros. Num sofá de couro gasto, livros amontoados, jornais, revistas e um cinzeiro por despejar. O chão acolhia, generosamente, aqueles que já não tinham espaço nas prateleiras e na secretária. Todo o ambiente se subordinava aos livros, incluindo uma árvore em flor que baloiçava ao vento e parecia espreitar para dentro, através da janela.
- Sente-se e não se preocupe com os livros espalhados no chão. Quando são bons, eles sabem defender-se dos nossos pés e levam sempre a sua avante…
- Ah, sim! E pregam-nos cada partida, vizinho… - respondeu Nicolau com um longo suspiro – Mas diga-me uma coisa: por que é que não envelhece? Apercebo-me disso nos seus livros e no seu dia-a-dia, sabe? Que milagre é esse, vizinho?
- Talvez seja a embriaguez, amigo! Ela é a grande alavanca do mundo. O lugar da paixão. O lugar alado.
- Como?! Quero perceber tudo isso e tenho pressa. O culpado é também o Dr. Silvestre, pois leio os seus livros, há muito. Tenho pressa… - repetiu Nicolau, enquanto limpava, com algum nervosismo, o suor da testa . – Se calhar… tem razão. A… embriaguez…
- Só acredito em mim, se estiver apaixonado – interrompeu o escritor, salvando-o do embaraço da questão. – Sem paixão, não há curiosidade, nada avança, não há nada, amigo, nada! Só tédio. Não passamos de ostras contentinhas que não fazem pérolas. O prazer de ler e de escrever, por exemplo…Como pode um aluno descobrir tal prazer, se o professor não estiver apaixonado? E… sabe que mais? Estou contente, porque sei que já entrou um grão de areia na sua concha…
- Acho que tem razão. É por isso que estou aqui. A culpa é dos livros que tenho lido. E alguns deles são seus, repito! Os livros mudaram a minha vida, sabe? Não me reconheço. Tenho muitos lá em casa. E, às vezes, até me parece que eles olham para mim, à espera do momento de saltar das estantes como os tigres saltam da selva. Sinto que mudei, vizinho. Acho mesmo que… ainda vou procurar uma mulher que esteve à minha espera a vida toda. Ela tinha razão. Eu era muito prepotente, possessivo, tinha horizontes muito estreitos… Comecei a ler Bernardo Soares e há questões que não me saem da cabeça: “(…) Possui alguém o rio que passa? Possui alguém o vento que passa? Possuímos nós alguma coisa (…)?” A Júlia era uma mulher especial, mas lia muito, lia demais. E eu achava que as mulheres que lêem são perigosas. Quanto mais ela lia, mais questionava, mais rebelde se tornava, dizia até que não queria cuidar só dos filhos que tivéssemos, das meias, do fogão… Comecei a odiar os livros e, um dia, deixei-a a chorar numa estação de comboios. Não voltei e ela também não me procurou, durante todos estes anos, mas eu sei onde mora e… sei que… não casou. A sua pele já não é de veludo, mas a alma daquela mulher não tem rugas, Dr. Silvestre! Não tem rugas! Tenho a certeza! E eu ainda a amo, sabe? Parece mentira, mas eu hoje amo-a, mais do que nunca!
- Então do que está à espera, vizinho? Se os livros lhe pregaram essa partida, não perca mais tempo! Vá à procura dela. Sintam o cheiro da vida, apaixonem-se, embriaguem-se. E deixem em paz os cabelos brancos que até são bonitos soltos pelos ombros – riu o escritor, oferecendo-lhe um cálice de vermouth. E os seus endiabrados olhos azuis, naquele momento, enviavam-lhe piscadelas maliciosas. Atordoado, Nicolau aceitou o cálice com um sorriso e não proferiu palavra durante alguns instantes. Tinha a sensação de que estava a libertar-se dos círculos infernais de um mundo estreito que o sufocava, há muito. A vida pousara a mão sobre o seu peito e o coração estava em alvoroço.
- Agora entendo, vizinho…- murmurou Nicolau com uma lágrima colorida no canto do olho.


Maria João Oliveira

odete ronchi baltazar


Bocejo



É pela manhã
que sinto a tua falta.
É quando acordo e
espalho a preguiça entre os lençóis,
quando me viro e não te vejo
que sinto a falta dos meus sóis
perdidos em teu olhar.

Falta-me o côncavo do teu corpo
que eu preencho com
ternura, pernas, braços e pés.
Falta-me o teu resmungar rouco,
o teu cabelo revirado,
falta o teu bocejo (nada) poético,
falta a tua roupa largada de qualquer jeito,
falta a tua displicência na hora de amar.

Que posso fazer?
Levanto-me,
visto-me com a tua ausência,
calço chinelos
e espanto o sonho que não quer acordar.
Lavo depressa na torneira a minha decepção.
O dia começou mais uma vez.
Deixemos de lado a emoção.



odete ronchi baltazar

Elane Tomich


Crônica do Amor Carnal




Dentre meus tantos pecados, há uma qualidade de estimação, que insiste em existir em mim, qual jóia de família, engastada em alguma veia dissidente do meu coração.

Nunca culpei alguém, pelos meus erros. Bem dito, maiores que meus acertos.. .

Quando erro, em pensamentos palavras e obras , por" mea culpa" ou desacertos de amor, que de desamor estamos doentes, saio em busca de mim, e tento o difícil resgate de quem se afoga em águas salgadas, talvez lágrimas, perdendo na respiração, o ar de esperança do verde, olhar sem metas, como na grande floresta.

Sempre volto á praia... exausta , cansada, mas viva.

Deito-me na areia macia da reflexão e penso em ganhar chão firme, na difícil trilha da metamorfose.

Tantas vezes fui borboleta, paixão tão grande quanto uma dízima periódica e tantas vezes me vi larva, recolhida e pensativa, pequena como a certeza.

Tenho um pensamento estranho que tento explicar ao meu em torno. Normalmente sou mal sucedida. Falando sozinha, acabo me ouvindo.

Pois que falar a sós, não é sandice, mas lucidez de cura , quando o turbilhão da crise nos envolve, para testar nossos vícios de renascer ao morrer.

Este pensamento, esta idéia, que tenta sua configuração em conceito, é tão obscura , que ainda tenho que dela fazer prosa, pois que a sábia simplicidade da concisão poética me é negada...

Desculpas, peço! Se muito procuro palavras, é porque engatinho na compreensão do meu desejo E como é grande este desejo! Tão grande , que mal cabe em mim...

Um erotismo, escultura abstrata do encontro de almas que buscam fundirem-se em suposta unicidade.

Chamei meu companheiro, de muitas faces, para ser meu parceiro, na busca deste fogo de Prometeu e que me amparasse no difícil aprendizado de ser mulher. Em contrapartida, eu o ajudaria no desvendamento do que é ser homem e juntos brincaríamos com esfinges, mitos e faríamos sinfonias de teoremas. Nunca, eu soube dizer direito.

Em contrapartida, ele quis me ensinar-me acrobacias sexuais para, através da carne, extasiar-se por segundos e viver da lembrança deste breve espasmo, curto circuito

De vida e morte

Muito pouco: eu queria conhecer a alma masculina, no descobrimento de mim, na leitura da mulher, pelo meu parceiro de muitas faces.

Da carne , estrela infinita obedecendo as normas do espírito, cumpriríamos todos os rituais mundanos, como uvas na língua e vinho escorrendo pela boca... Sexo rápido á beira do fogão ou dançando um tango no Viejo Almacén. Do espírito, alimentando a fome atávica de existir, repetiríamos os rituais do amor primitivo, para sempre puro em devassidão sem limites.

Fico assuntando se não seria deste chão que brotaria a delicadeza de mãos entrelaçadas no medo de ir longe, para atravessarmos juntos, as pontes de palha dos nossos infernos.

O orgasmo que vem do amor, não tem tempo nem espaço, e eu penso que é onde as almas gozam de um jeito tão infinitamente forte que é como caminhar na perfeição de um círculo, onde nas margens, nos vigiam origem e futuro da humanidade num só tempo.

A alma goza no corpo, carne que se eterniza saborosa, numa maciez de tal tamanho e conforto, que coloca no mesmo lóculo este mistério do êxtase da matéria, o aperto de mão dos amantes e a delícia do calor dos corpos casados, no silêncio da carne pacificada, Então, como Lúcifer é expulso o medo de viver desse paraíso.

Carne de alma, alma da carne onde por sulcos e cicatrizes por onde escorreram a vida, marcas tão bonitas como as manchas lilazes que o amor deixa no escondido do banho matinal. Desenhos rudes, num desafio à lapidação dos diamantes dos sentimentos

Não sei se é chegada a hora deste encontro!.. E, como não culpo ninguém pelos meus pecados de desentendimento e de não saber de saber de amor, e dele falar, vagarei sozinha por uma estrada bonita mas com tal bruma, que não sei se reconhecerei , ao final, aquela menina que quis amar carne abstrata, alma de sangue, de um só e eterno amor!

Ai que pedido precoce eu tive. De pedir à carne os prazeres da alma e à alma a devassidão da carne.

Será que o tempo ouviu minha súplica ao moto contínuo do vento?



Elane Tomich

Antônio Adriano de Medeiros


CABALA, UM SONETO



Cronos soma, e o que é soma em Cronos

no Espaço corresponde a movimento.

Assim o que era um Ponto num momento

em outro já é Linha, e agora somos

é o verbo que se conjuga. No Caos

porém, ainda. E é justamente quando

surge o Círculo que a Ordem dá os

primeiros sinais de que se vai criando  

algo duradouro, e o verbo é agora

um repetir que se expressa multiplicando.

A Perfeição surgiu assim na hora

em que se criou o círculo geométrico.

E o soneto é o círculo no que toca ao poético.



                  Antônio Adriano de Medeiros

José Gil


GAIVOTA

 ao Teatro de Tchecov e da Cornucópia

no branco da rosa onde construo o coração, o rosto
e  a  representação  das ondas numa lista de novos
pecados, a revolta é a obrigação natural da virtude
dos jovens em Paris e aqui onde em cinco naufrágios
tudo o que é novo habita a precariedade do crepúsculo.
passeio no jardim dos moinhos do restelo, escrevo pão
toda a poesia sincera é medíocre, não quero escrever mais.
E quero escrever com a sinceridade de um poeta que se
levanta e deita sem mudar o rosto, a vela, a musica, a luz
e sobretudo  Deus. Quero mesmo deixar de escrever.
e escrevo como uma bandeira daha, dhaa, dah em molhe
de bandeiras negras de outra efemeridade como o Sena.
         na rosa  branca corro na pétala como um rio .E não quero
correr mais. e vou correndo em cada minuto. há que conhecer
as coisas simples, ser vendedor ambulante , brincar com as identificações
gráficas dos partidos, a arte e os poderes. E não ter centro nenhum.
nem uma gaivota por dentro da sociedade politica do vidro. mas não
é transparente. e lê-se tudo por dentro e por fora onde o coração
ainda se constrói. vê-se mesmo de dentro o que vai por fora. e não se
vê de fora o que vai por dentro. é a hipocrisia destes vidros foscos.

deixo apenas junto á rosa a minha mão melancólica, deito-me a
escrever na intersecção entre a arte visual e sonora. o fotografo
chega e rouba o tempo, fixa,  dispara, o pêndulo entre as duas
águas do mar, fragmentos de sementes no café-in onde as batalhas
são invisuais e a alma dos homens sopra na flor da rosa a democracia.


José Gil